Caríssimas irmãs e caríssimos irmãos

É com profunda alegria que hoje celebramos a festa de S. Josemaria Escrivá nesta Igreja da Anunciada, em Setúbal. Nos dias de hoje, esta celebração é uma manifestação da força sempre actual do Evangelho, revelando a sua perene novidade a uma civilização que, de tão avançada que pretende ser, se encontra, porém, necessitada dos valores humanos mais básicos.
 
Deus interveio na história através de S. Josemaria: a graça de Deus continuamente actua através dos seus santos. A nós, que agradecemos essas intervenções de Deus e a correspondência dos que foram escolhidos como instrumentos, cabe-nos tomar consciência de um modo mais concreto como também Deus quer continuar a intervir e a tornar presente a sua força redentora em toda a parte através de cada um de nós, chamando-nos a ser protagonistas da nova evangelização.
Festa de S. Josemaria: oxalá com esta celebração, cada um se sinta interpelado a avançar mais decididamente no caminho da santidade e a levar a todos os lugares a alegria dos filhos de Deus.
 
Todos: jovens e menos jovens, sãos e doentes, pobres e ricos, temos de sentir-nos responsáveis pelo mundo em que vivemos; todos, cada uma e cada um, temos de colocar Cristo no cume de todas as actividades humanas.
 
É urgente a nova evangelização à qual o Santo Padre nos mobiliza, e é bom que todos nos preparemos muito bem para viver o Ano da Fé que Bento XVI convocou para toda a Igreja. Vivemos momentos de crise profunda na sociedade, uma crise não meramente económica mas crise de civilização, de perda do sentido transcendente e ético da vida. E o que o mundo necessita para se orientar é de encontrar Deus, encontrar a fé que transforma a vida. Disse Bento XVI em Fátima: “No nosso tempo em que a fé, em vastas zonas da terra, corre o perigo de apagar-se como uma chama que já não recebe alimento, a prioridade que está acima de todas é tornar Deus presente neste mundo e abrir aos homens o acesso a Deus”. E isso compete-nos a nós, aos que nos sabemos filhos de Deus, ouvíamos na segunda leitura, àqueles com quem Jesus quer contar para realizar a sua missão redentora: “faz-te ao largo … lançai as redes!” “Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho!” Como nos dizia S. Josemaria, perante esta civilização que cambaleia sem recursos morais não vamos ficar numa atitude de lamentação pessimista: estas crises mundiais são crises de santos, e portanto um chamamento imperioso à santidade pessoal e ao apostolado: esse é o único remédio eficaz e que está ao alcance de todos.
 
Santidade pessoal. Na vida corrente: no trabalho, na família, no descanso. Nas alegrias e nas dores. Nos êxitos e nos fracassos. A festa de hoje convida-nos a fazer um exame sincero e valente da nossa vida: Meu Deus, estou a dar a cada dia, a cada tarefa, a intenção de ser santo? O que é que eu posso fazer mais? Tu, meu Deus, encontras em mim quando faço as minhas orações, ao realizar o meu trabalho, na minha relação com os outros, a tonalidade de heroicidade própria da santidade? Ou será que me contento com uma mediania e mediocridade na minha fé?
 
Para avançar no caminho da santidade, é condição primeira e básica que nos enchamos da força de Deus, que cuidemos a vida interior: ser almas de oração, de oração que transborda; recorrer aos sacramentos de modo que nos transformem; contemplar o rosto de Cristo, e assim aprender a ver a própria vida, as pessoas que nos rodeiam, os acontecimentos do mundo, com os olhos de Cristo: “Que eu veja com os teus olhos, Cristo meu, Jesus da minha alma” exclamava S. Josemaria; daí tiraremos o critério para a nossa vida e o impulso para actuar em consequência. Hoje é um bom dia para renovar o nosso empenho por cuidar mais a vida de oração, por receber com assiduidade a formação, por ser constantes e dóceis na direcção espiritual, de modo a chegar a ter uma intimidade pessoalíssima com o nosso Deus. É ou não verdade que todos podemos e devemos ser mais assíduos, mais profundos, mais consequentes, na oração?
 
Dizia, viver uma oração que transborda, que influi no dia-a-dia, que gera unidade de vida: se queremos transformar este mundo, é primordial não pactuar em nós com comportamentos que denotariam falta de coerência com a fé. Muitas vezes teremos de ir contra-corrente; vivendo com naturalidade a fé chocaremos com a mentalidade predominante; mas também daremos o testemunho vivido de ter encontrado a verdadeira alegria. Não porque pensemos que somos melhores do que os outros: os apóstolos também não eram melhores; mas sabiam-se portadores da mensagem de Cristo e por isso com o testemunho da sua vida e com a sua palavra foram instrumentos da graça de Deus para revolucionar a sociedade onde viviam.
 
Santidade pessoal e apostolado. É necessário criar uma nova cultura, impregnar o mundo com os valores do Evangelho. Para isso, não basta o mero exemplo; urge empenhar-se numa acção apostólica incisiva e audaz: “primeiro, oração; depois, expiação; em terceiro lugar, muito em terceiro lugar acção” (Caminho, n. 82), acção que não pode faltar cada dia. Diz S. Josemaria no Sulco (n. 945): “Se nós, cristãos, vivêssemos realmente de acordo com a nossa fé, far-se-ia a maior revolução de todos os tempos!”, e neste terceiro milénio é a hora de levar a cabo essa revolução como nunca!
 
Cada um, à sua volta, mobilizando as boas vontades tantas vezes adormecidas dos que o rodeiam, deve ser essa pedra que cai no lago e vai alargando cada vez mais o círculo da sua intervenção (cf. Caminho, n. 831); pergunta-nos S. Josemaria: “Ouve: aí... não haverá um... ou dois, que nos entendam bem?” (Caminho, n. 805). Aqui, em Setúbal, em Palmela, no Montijo, onde for. Não haverá um, ou dois? Sim! Muitos mais. É necessário falar com as pessoas com quem nos relacionamos, de tu a tu, de coração a coração (cf. Sulco, n. 191), levá-las ao encontro com Cristo na oração e nos sacramentos, e bem sabemos como é de particular importância o apostolado do sacramento da Penitência numa sociedade onde se procura calar a voz da consciência.
 
A isto ajuda-nos o espírito do Opus Dei: a ser bons cidadãos, bons cristãos, fiéis exemplares da nossa diocese, bons paroquianos; aqui em Setúbal, a secundar o programa pastoral que o Bispo diocesano, D. Gilberto, estabeleceu para a diocese nestes anos: “Setúbal, oferece aos teus filhos uma iniciação cristã exigente e atractiva!” E isso tomando consciência de um modo particular da vocação laical que cada um recebeu, da necessidade de ser apóstolos, de testemunhar a nossa fé no âmbito da família, do trabalho, das nossas amizades.
 
Deus, ao chamar-nos ao Opus Dei, ao fazer-nos aproveitar a formação que se dá no Opus Dei ou participar nas actividades que promove o Grupo de Amigos de S. Josemaria, pretende alguma coisa. Podemos e devemos fazer mais: esta é a conclusão que teremos de tirar desta celebração da festa de S. Josemaria. Temos pela frente uma aventura maravilhosa e é preciso que estejamos à altura do que Deus espera de nós. Esperança: temos toda a graça de Deus; optimismo: Deus pode mais do que a nossa fraqueza, se soubermos corresponder.
 
“Omnes cum Petro ad Iesum per Mariam” (todos com Pedro, a Jesus por Maria). Este é o lema que S. Josemaria viu como pauta para a actuação do Opus Dei. Que saibamos viver cada vez mais unidos ao Papa, rezando pela sua pessoa e intenções. Que saibamos percorrer o Ano da Fé com a fé que muda o decurso dos acontecimentos e que transborda à nossa volta. Que recorramos à protecção da Nossa Mãe, aparecida em Fátima, para com Ela ir até Jesus e dar o nosso “sim” ao que Deus espera de nós.
 
Peço a S. Josemaria que cada um tire desta festa um impulso concreto para ser mais audaz: que avance decididamente no caminho da santidade e do apostolado.