Quando estava a responder a algumas mensagens informáticas – vulgo, «emails» – fui interpelado, no «chat» de uma rede social, por uma desconhecida. Como a não identificava pelo nome, nem pela respectiva imagem, recorri à informação do seu perfil, onde li esta confissão: «sou simpática, adoro ser famosa (sem vírgula) não percebo porque que (sic) ninguém me pede amizade (sem vírgula) mas eu juro por tudo que sou a verdadeira x x (o seu nome próprio e apelido, sem maiúsculas, nem seguido de ponto) beijos para os meus fãs». 
Já elucidado pela significativa apresentação e correspondentes erros gramaticais, soube depois, já à fala com a própria, que contracenava nos “Morangos com açúcar” e que daí lhe advinha a fama e a pena de ter tão poucos fãs. Poucos para os muitos que esperava ter, sobretudo depois de jurar, «por tudo», que é a autêntica actriz e não uma qualquer homónima impostora.
 
Confesso que fiquei atordoado com a inesperada e famosa diva, perante a qual me arrependi da minha crassa ignorância televisiva. A bem dizer, também me penitencio por aceitar, indiscriminadamente, qualquer pessoa que solicite a minha «amizade virtual». De facto, tenho tantos «amigos virtuais» que, diga-se de passagem, até conheço alguns! Mas não era esse, manifestamente, o caso da famosa jovem mediática.
 
Foi também por essa altura que deu brado um sórdido crime ocorrido em Nova Iorque, que envolveu dois portugueses que, não obstante a enorme diferença de idades, mantinham uma ambígua relação, por sinal encetada na mesma rede social. O caso resultava tanto mais chocante quanto o protagonista do homicídio era um jovem sem antecedentes criminais, nem quaisquer circunstâncias que pudessem prever um acto daquela natureza.
 
Apesar de ter lido “Os Lusíadas”, o “Dom Quixote” e a “Divina Comédia”, nunca tive tempo, nem paciência, para ver nenhum episódio dos “Morangos com açúcar”, o que me absolve da culpa de não ter ficado imediatamente deslumbrado com a intervenção da minha famosa correspondente internética. Mas pergunto-me se uma programação televisiva que faz tão rapidamente mulheres famosas, não será também responsável por fazer, com a mesma rapidez, homens criminosos. E a questão parece tanto mais pertinente quanto o infeliz presumível assassino, enquanto modelo, era também ele próprio, segundo os mesmos padrões, famoso.
 
Enquanto os clássicos exaltam o valor, elogiam a virtude provada, premeiam o sacrifício esforçado e enaltecem os mártires e os heróis, os produtos televisivos de consumo juvenil privilegiam o amoralismo existencial, o elogio do facilitismo profissional e a irresponsabilidade emocional, na fútil expressão de «misses» e «modelos» de muita aparência e nenhuma substância. Quando se retiram os crucifixos das salas de aula e as referências da juventude já não são os homens e mulheres que fizeram a História de Portugal, mas uma qualquer «socialite» que é capa de revista, ou um riquíssimo futebolista que, para além de exibir inúmeras companheiras, é também patrocinador de roupa interior, certamente, como diria Hamlet, há algo de podre no reino da Dinamarca.
 
Dois protagonistas de duas histórias – uma comédia e um drama – uma imaginária e a outra real, mas talvez ambas unidas por um mesmo vazio cultural: a absoluta carência de valores e de princípios morais, que é incutida, por activa e por passiva, nos jovens consumidores de certas séries e programas televisivos. A bela e o monstro não serão, afinal, o verso e o reverso de uma mesma moeda, as duas faces da geração “Morangos com açúcar”? 
Gonçalo Portocarrero de Almada