A morte de José Saramago suscitou um vendaval de desencontradas opiniões que, por força das suas reiteradas incursões bíblicas, releva para a comunidade eclesial. Saramago foi, de facto, recorrente no uso e no abuso da temática cristã, razão que explica ódios de estimação e amores de predilecção.
 
Zelosos zelotes modernos imolaram o falecido escritor na incandescente pira da sua santa ira, talvez sem advertirem que, agindo desse modo, estavam a incorrer na mesma raiva que tão veementemente reprovavam. A atitude cristã não pode resvalar para tão sumárias condenações, até porque das consciências só Deus sabe e, nesta delicada matéria, nem tudo o que parece, é.
 
Excluído o juízo sobre o homem e sobre o destino eterno da sua alma, impõe-se uma breve consideração acerca da sua obra.
 
Há quem entenda que Saramago, pelo facto de ter sempre por perto a Bíblia, inscreve-se no âmbito dos escritores religiosos, senão pela sua adesão à fé, que não consta, pelo menos pela inquietação de que os seus textos são expressão. Tão generosa apreciação certamente faria religiosos quase todos os escritores, porque tudo o que se escreve é susceptível de uma mais ou menos remota implicação transcendente. 
 
Desfaça-se, de uma vez por todas, a perniciosa ambiguidade: a obra do Nobel português não é religiosa, nem cristã, mas fundamentalmente anti-religiosa e anti-cristã. As temáticas bíblicas não são suscitadas com outro propósito que não seja o da sua «desmistificação», ou seja a sua reintrepretação de forma contrária ao entendimento da fé da Igreja. Saramago pretendeu perverter a doutrina cristã, alegando a falsidade dos factos em que os cristãos crêem, não apenas como objecto da sua fé, mas também como realidades históricas. Neste sentido, não se pode negar que não foi apenas um literato ateu ou arreligioso, mas positivamente anti-religioso e anticristão.
 
Pretender que o mero uso de temas bíblicos, ou cristãos, numa obra é suficiente para poder considerá-la próxima à Igreja, é tão absurdo como considerar genuinamente evangélico o lema «ó alma (…) descansa, come, bebe e diverte-te» (Lc 12, 19), só porque o mesmo consta, mas como exemplo a evitar, na Sagrada Escritura.
 
Alguns cristãos, por diletantismo cultural, gostam de se exibir como leitores de Saramago, até por entenderem que, quem não conhece directamente a obra do escritor, também não está habilitado para emitir qualquer juízo crítico. É verdade que, para uma aprofundada análise, requer-se o acesso às fontes primárias, mas seria disparatado supor que a não leitura de tal literatura inviabiliza um prudente e sensato juízo a esse propósito.
 
Muito embora seja de louvar o conhecimento de experiência feito, o mesmo não é essencial, nem o mais importante, para um veredicto objectivo e justo: o oncologista que nunca teve cancro não é, por este motivo, menos credível do que um clínico que padeceu essa doença. É provável até que o conhecimento científico dessa patologia, se isento de qualquer interferência subjectiva e emocional, seja mais objectivo e racional. Não é preciso ingerir o veneno para poder concluir, com razoável fundamento, o seu efeito fatal.
Descanse em paz a alma do escritor, mas não se dispense à sua obra de propaganda ateia e anti-cristã um culto idolátrico, pelo menos pelos cristãos, cuja caridade deve ser vivida no amor aos inimigos, mas também na intransigente fidelidade à verdade que é Cristo Nosso Senhor. 

Gonçalo Portocarrero de Almada